Uma vespa fez ninho num buraco de um divan que tenho no jardim. Aquilo incomoda, pica, eventualmente. Ao fim de vários dias decidi, tapei o buraco.
Estava à janela da cozinha quando ela voltou ao alpendre onde está a minha cama de leitura ao ar livre, prazeres da vida no campo.
Horas passadas ainda ali andava. Voava zonza, entontecida. Andava assim desde que chegara. Sabia onde era a entrada, mas parecia não usar os olhos, apenas o instinto, aproximava-se, afastava-se, procurava um pouco mais ao lado, visivelmente perturbada, desorientada, como se o instinto lhe falhasse e tivesse que pensar, coisa que não sabe, não pode, não consegue fazer. Voava então para mais longe, como que para retomar o caminho, como que para fazer voltar atrás o tempo, e volta, volta sempre. Volta a quê? A um instinto? A uma casa? A um ninho? Desespera, ainda que só por instinto, por uns ovos de que há-de cuidar?
Horas passadas e ainda ali anda e de cada vez que a vejo aumenta-me um sentimento de culpa, de pena.
O raio daquela irritante vespa ficou tão humana. Entendi os janaístas.
13/05/2007
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